Há quem acredite indubitavelmente que, como diria o “sábio” ditado popular, o que os olhos não vêem, o coração não sente. Aceitável. Só se deixa de acreditar nessa aparente verdade quando se percebe que um coração raramente bate sozinho.

A menos que as atitudes sejam em prol de si mesmo, um coração sempre carrega consigo a responsabilidade de fazer outro funcionar. E aí, não há coração suficientemente gélido a ponto de querer cegar os olhos; ou, pelo menos, não deveria haver.

Na verdade, o que os olhos não vêem um único coração não sente. Mas, quando dois corações estão fortemente ligados, é impossível não sentir dentro de si a dor de ter magoado o outro. Involuntariamente, ele sente. E, se isso não acontecer, é porque o motivo que os une é mediocremente tangível aos olhos.

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Título amargo

E, mais uma vez, são centenas de pensamentos girando em uma cabeça confusa. São palavras que ecoam, lembranças que vão perdendo o sentido. Coração que maltrata o peito, lágrima que hesita. Ela não é nada; nada além de um amontoado de palavras amargas que saem.

            De repente tornou-se tudo tão medíocre. E, assim de repente, não existem mais grandes romances, nem grandes pessoas. O que existe é o mais previsível cenário: decepção.

            E as palavras que ecoam? Ah! Como trazem à tona lembranças para destroçá-las. Foram tantas as vezes que ele disse que ela era a mais linda. E aquilo fez tão bem a ela! Num final de tarde, à beira do mar. Agora, nada mais faz sentido. E a lágrima? Desobediente. Não hesita mais em cair. Corre quente, alivia. Mas também, quem manda ela acreditar em contos de fadas?

            Há amor, ela não duvida disso. Mas há também aquela vontade de ser livre. Ela ouviu da boca de outros o quanto ele a ama… Que delícia! Mas parece que, algumas vezes, ele se limita a ser como os demais. Ela entende… É humano. É honesto. É homem.

            E quanto a ela? Também erra. Ela chora porque também encontra em si resíduos do que encontrou nele. Ela fraqueja. E se ele soubesse das coisas que ela fala pras amigas… Ah, coitada. A sorte dela é que ele é seguro de si. Sorte a dele também; não sofre. Sendo assim, por que ela reclama? Porque sabe que, nas coisas que diz, não há maldade. Ela não fala por ela, fala pelos outros. Não quer que pensem que está indefesa. Mas está.

            Ah! Se ele soubesse o quanto ela o ama! Se ele soubesse quanta coisa ela renunciou por causa dele! E se soubesse quanta coisa ele resgatou nela! Trouxe a ela nova vida. Devolveu a ela o riso, devolveu a ela o choro que agora cai. Ela estava fria, pálida. Foi ele que deu cor à vida dela. “Você está mais bonita! Está apaixonada?”, é o que todos dizem quando a vêem. Sim, está. Ela adora saber que sim. Mas é fraca, é diferente. Não sabe levar um namoro como o da maioria. Ela bem que tentou! Lutou e lutou, tentou provar que não estava envolvida… Tarde demais. Percebeu que, para ela, é tudo ou nada. O meio-termo fere.

            E agora, com o que se deparou?  Um aglomerado de meio-termos saindo por detrás das cortinas. Ela estava enganada quando acreditou naquele conto de fadas. Acorda, menina! Você não é nenhuma princesa! Caso não saiba, as princesas de hoje em dia são aquelas gostosonas para quem eles olham! São independentes, sabem ter um relacionamento moderno. Você é piegas demais, mesmo quando tenta provar que não. Não se engane, meu bem.

            Ela pensava que seria tudo diferente dessa vez. Ela estava diferente. Mas notou que, na verdade, é melhor ser igual aos demais para ser feliz – ou para, pelo menos, atingir a felicidade no seu conceito esdrúxulo.

            E agora, o que ela sente? Vontade de mudar. Ora, pare de ser ingênua! Aqueles romances que você vê nos filmes não existem em um mundo em que as pessoas tentam provar o tempo todo que ninguém é de ninguém. É assim. Você mesma já tentou provar isso algumas vezes. Não deveria haver estranheza. E ainda se espanta? Por quê?

            No fundo, ela sabe a resposta. Espanta-se porque acreditava no seu “felizes para sempre”. Porque, até agora a pouco, seu coração era poesia, e não um ensurdecer de palavras que ferem. E, dentro do mesmo coração, ele havia despertado o amor.

            O que ela é agora? Não sabe. Mas também não quer procurar saber. Tem medo. Só não quer mais que se iluda, nem quer dar ao coração motivos ilusórios para bater depressa.

 

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